Aproximação entre Argentina e China pode resultar em

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Desde julho, são constantes as manifestações em Buenos Aires contra o acordo com a China para a construção de fábricas suínas na Argentina. O anúncio do Ministério das Relações Exteriores chegou no dia 6 de julho como uma grande notícia e números extraordinários: 9 milhões de toneladas de carne suína seriam destinadas a abastecer o país asiático.

Porém, com a reação negativa da sociedade civil, o ministério passou a comunicar que a produção seria de 900 mil toneladas em um período estabelecido de quatro anos. A pressão nas ruas e as milhares de assinaturas que reuniu a carta em repúdio ao acordo fez adiar a decisão. A assinatura do acordo agora está prevista para novembro.

O cenário é de uma relação cada vez mais estreita entre a Argentina e a China e uma preocupação crescente da sociedade civil, ambientalistas e outros especialistas no tema das mudanças climáticas. Nesse caldo, um possível acordo faz emergir discussões mais profundas sobre soberania alimentar e quais seriam os custos da aceitação de investimentos dessa natureza em meio à atual crise econômica do país sul-americano.

Por outro lado, a China tem interesse em expandir a fabricação de carne suína em outros países, a dois anos do surto da peste suína africana que levou ao abate de milhões de porcos. Em uma ligação telefônica realizada na semana passada, o presidente Alberto Fernández e o presidente chinês Xi Jinping reforçaram projetos em saneamento básico, moradia, conectividade, energia renovável e transporte. Não houve menção ao acordo sobre as fábricas no comunicado presidencial sobre essa conversa.


China supera Brasil como parceiro comercial da Argentina

O interesse crescente na China pela América Latina não é exatamente uma novidade, quando se sabe que a China é um dos principais parceiros comerciais do Brasil e da Argentina, com presença em diversos países na região. Mas a relação com a Argentina tem sido especialmente mais próxima: por quatro meses consecutivos, a China superou o Brasil como seu principal sócio comercial.

Só em abril, a Argentina exportou US$ 509 milhões para a China, enquanto, para o Brasil, seu parceiro comercial histórico, foram US$ 393 milhões, segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec).

Ainda que as relações entre os atuais presidentes do Brasil e da Argentina não sejam das mais amigáveis, o contexto da pandemia pode ser também um agravante para a mudança de postos nesse ranking. Além disso, os mercados aos quais a Argentina atende nessas relações exteriores têm destinos bem diferentes: enquanto a China recebe principalmente grãos, cereais e carnes, o Brasil importa do país vizinho peças industriais para a fabricação de automóveis.

Se firmado em novembro, o acordo com a China aprofundará os laços da associação estratégica integral estabelecida há décadas. O intercâmbio entre os países tem sido expressivo em termos econômicos, culturais e acadêmicos. A Universidade de Buenos Aires, principal instituição acadêmica pública da Argentina, dedica há dois anos um espaço específico para os estudos dessa relação, o Centro de Estudos Argentina-China (CEACh).

“São atores de pesos específicos diferentes no sistema internacional”, afirma o diretor do CEACh, Ignacio Villagrán. “A Argentina é exportadora de matérias-primas para a China, principalmente produtos agroalimentícios, enquanto importa celulares, computadores, elementos de alto valor agregado”, continua.

Villagrán destaca que a relação é assimétrica, e não subordinada. Mas que os pesos distintos são revelados em acordos como o que está em discussão no momento. “A situação na Argentina é muito particular. Com mais de 40% da população na pobreza, qualquer tipo de investimento é visto como oportunidade de trabalho. É investimento, mas é preciso pensar em que condições ou circunstâncias isso se dá.”

 

Fábrica de pandemias

Além do contexto da pandemia do novo coronavírus, o anúncio do projeto das fábricas suínas se deu em meio às trágicas queimadas que já atingem 14 províncias argentinas. Os incêndios avançam há mais de dois meses e afetam, como no Brasil, a zonas pantanosas.

A jornalista e pesquisadora em indústrias alimentícias Soledad Barruti destaca que as queimadas vêm acompanhadas de ampliação da fronteira agrícola. Uma das principais críticas ao possível acordo, ela lançou uma carta para barrar o projeto, com milhares de adesões em poucas horas, que enfatiza: “este convênio com a China nos coloca ainda mais longe da desejada soberania alimentar”.

“O cenário básico de uma granja industrial é problemático por recursos, contaminação e pela saúde pública”, afirma Barruti, incluindo como resultado desses projetos o deterioramento da condição de vida das populações ao redor desses lugares. “[Esses lugares] São rodeados de pragas e os depósitos de dejetos geram gases tóxicos. Há um grande potencial de surgimento de vírus e pandemias”, conclui, citando o exemplo do Brasil, em que um vírus com potencial pandêmico foi identificado em um frigorífico.

A escritora, autora dos livros Mala leche e Mal comidos: como a indústria alimentícia está nos matando (sem tradução no Brasil), aponta para o perigo de ceder a esse acordo das fábricas suínas. “A China se apresenta como um sócio estratégico, necessita completamente da Argentina, e nós, aparentemente, precisamos de dólares. Nessa equação, estamos rematando os últimos recursos que nos restam e nossa soberania alimentar em prol da segurança alimentar deles.”

Procurado para comentar sobre o acordo com a China, o chanceler Felipe Solá não respondeu às solicitações até a publicação desta reportagem.

 

Edição: Luiza Mançano

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