Edições regionais de O Pasquim em SP e RS ganham acervo digital

Abertura política no país, lançamento do Plano Cruzado, fim da fabricação do fusca, acidente radioativo em Chernobyl. Foi em meio a esse cenário que, em 1986, os estados de São Paulo e Rio Grande do Sul ganharam edições regionais de O Pasquim. 

O periódico, que havia se consolidado no Rio de Janeiro em plena ditadura militar, com uma linha editorial irreverente, crítica e, não raro, censurada, passou a falar com o sotaque desses dois estados por um curto período de tempo.
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Para celebrar essa história, que completa quatro décadas, as 114 edições regionais do Pasquim foram digitalizadas e colocadas à disposição dos leitores na Biblioteca Nacional Digital. O acervo já incluía as 1.072 edições cariocas do jornal alternativo.
Quando surgiu a ideia de levar o Pasquim para São Paulo e para o Rio Grande do Sul, o tabloide já não tinha mais a relevância que teve nos anos 60 e 70. Dois jornalistas tomaram lideraram o projeto, movidos pela admiração que sentiam por essa que foi uma das marcas do jornalismo brasileiro.
Em São Paulo, o jovem Paulo Markun embarcou na aventura (definição dele próprio), levando consigo Manoel Canabarro e apoiado por Dante Matiussi.
Assim que soube que o jornal se abriria a outros mercados, Flávio Braga pegou um ônibus do Rio Grande do Sul rumo ao Rio de Janeiro, disposto a convencer o cartunista Jaguar ─ na época, diretor de O Pasquim ─ a autorizar uma sucursal gaúcha.
Flávio acredita que as pessoas podem até saber da importância do Pasquim, mas dificilmente têm a real dimensão do que ele significou para toda uma geração.
O jornalista exalta o papel transgressor expresso em artigos e entrevistas comandadas por nomes como Millôr Fernandes, Tarso de Castro, Sergio Cabral, Ruy Castro e Paulo Francis, além das charges e caricaturas de Jaguar, Henfil, Ziraldo. Tudo entremeado de palavrões, sátiras políticas e contracultura. “E isso em plena ditadura militar”, pontua.
Pautas locais com a mesma irreverência
Uma das particularidades das edições regionais era a pauta. Os assuntos tratados eram locais, ainda que, eventualmente, utilizassem entrevistas e reportagens da matriz carioca.
No Sul, o Pasquim manteve o tom satírico para, por exemplo, falar do típico “macho sulino”, o que provocou confrontos e debates, lembra Flávio.
Já em São Paulo, espelhou a “efervescência política, fruto do fim da ditadura, que tinha acabado pouquíssimo tempo antes”, diz Markun.
As edições regionais expuseram também aspectos comportamentais típicos da contracultura e que eram muito mais visíveis no Rio de Janeiro, como, por exemplo, a liberdade sexual e o uso recreativo de drogas.
As sátiras políticas, responsáveis por boa parte do sucesso de O Pasquim, encontraram em políticos como Paulo Maluf um prato cheio. Governador do estado de São Paulo e, por duas vezes, prefeito da capital, Maluf não tinha o apoio político de nenhum dos colaboradores na regional paulista.
“Todos eram contra o Maluf. Tinha os defensores do Eduardo Suplicy, que era do PT, do Orestes Quércia, que era do PMDB, e até do Antônio Ermínio de Moraes, que era, na época, do PTB, um empresário candidato pelo Partido Trabalhista Brasileiro, veja só”, conta Markun.
Outra das particularidades de O Pasquim em suas edições regionais foi dar relevância ao trabalho de cartunistas e jornalistas locais. Em São Paulo, Markun, cita nomes como Marangoni, Régis, Laerte, Jau (Jaguar), Jô Soares, Augusto Nunes, Gabriel Priolli, Alberto Dines e Fernando Morais.
“Aliás, os dois tiveram uma briga pública no Pasquim São Paulo, por conta da defesa de seus candidatos a governador”, conta sobre Dines e Morais.
No Rio Grande do Sul, Flávio lembra: “Edgard Vasquez, que até hoje continua desenhando, Santiago, Bier (Augusto Franke Bier), Canini (Renato Vinícius Canini), o jornalista Reverbel e muitos outros. O jornal não existiria sem eles”.
Sobrevivência no pós-ditadura
A subsistência financeira, crucial para qualquer publicação ontem e hoje, foi um dos aspectos determinantes para que O Pasquim durasse pouco mais de um ano, tanto em São Paulo quanto no Rio Grande do Sul.
No Sul, a redação ficava em Porto Alegre, e o tabloide se sustentou com parcerias estratégicas e anunciantes de peso, como a extinta companhia aérea Varig.
Em São Paulo, diz Markun, os anunciantes não eram muitos, e a venda avulsa era razoável, mas aquém do necessário.
“Havia muita gente que ainda resistia à ideia de anunciar no Pasquim, por conta do passado mais irreverente”, analisa Markun.
“Os cenários eram diferentes: no tempo da ditadura, o Pasquim foi um tal êxito de vendas que não foram os anúncios que deram dinheiro, foi a venda avulsa. Ele vendia 200 mil exemplares, um número impressionante”, pontua.
Para Markun, a falta de clareza sobre qual seria o papel de um jornal alternativo, finda a ditadura, foi outro aspecto que tornou a sobrevivência das edições regionais difícil.
“A imprensa tradicional já abria espaço para debates e discussões anteriormente proibidas, então, sobrava uma franja muito reduzida para a gente operar”.
Digitalização
Esta semana, o Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF2) manteve, por unanimidade, a decisão que obriga uma produtora cultural a devolver à União R$ 812 mil captados por meio da Lei Rouanet, para o projeto de digitalização de “O Pasquim”.
A produtora já tinha sido condenada em primeira instância pela Justiça Federal no Rio de Janeiro. O projeto havia sido aprovado pelo Ministério da Cultura e recebeu patrocínio da Petrobras.
O problema surgiu na hora da prestação de contas, já que não foi comprovado que todo o acervo do jornal seria disponibilizado gratuitamente na internet.
Já a digitalização do acervo pela Biblioteca Nacional foi coordenada de forma voluntária pelo corretor de seguros Fernando Coelho dos Santos, outro admirador de O Pasquim, além de amigo de vários dos jornalistas e cartunistas que fizeram a fama do jornal.
Depois que se aposentou, em 2016, Fernando trabalhou gratuitamente na digitalização do acervo original, das edições cariocas, e também coordenou uma exposição no SESC no cinquentenário do jornal, em 2019.
Em seguida, o admirador do periódico alternativo trabalhou nas edições regionais de São Paulo e Rio Grande do Sul em conjunto com a Biblioteca Nacional, em um extenso trabalho de “formiguinha”, que incluiu desde a reunião do material até a operacionalização técnica. De todas as edições publicadas regionalmente, faltou digitalizar apenas duas, que o corretor não conseguiu encontrar.
“Hoje, o site do Pasquim dentro da Biblioteca Nacional Digital tem 100% do principal e 98% das duas franquias. E as franquias são uma coisa inédita, porque muitas pessoas não se lembram que elas existiram”, conta.
Segundo Fernando, o trabalho foi uma espécie de doação. “Eu doei minha parte para essa história ficar. Tem tanta história! E fico muito feliz da Biblioteca Nacional Digital ter apoiado a ideia e ter ido além, porque o site é o único que tem tudo de um periódico que marcou época e é um dos mais importantes do Brasil”.
Quem quiser saber mais sobre como era e o que significou O Pasquim, tanto nas edições originais, quanto na das franquias regionais, pode acessar o endereço: https://bndigital.bn.gov.br/dossies/o-pasquim/
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